Aguenta Caladinha


Me atrevo a afundar
No limbo viscoso penetrar
Até conseguir te encontrar
Sobre aquele dia vamos conversar

Quando sua inocência esmagar
O estupro teve de enfrentar
A água quente não pode te limpar
A dor e a humilhação te transformar

Ele disse que ninguém iria acreditar
Afinal uma criança pode com a verdade faltar
Uma adolescente quer a atenção chamar
E uma mulher adulta escolheu na situação se colocar

Seu coração em um cofre trancar
Foi difícil tentar não lembrar
Mesmo quando parecia superar
Os flashs surgiram para te recordar

A ferida parece que não vai cicatrizar
Não deixa ninguém se aproximar
Seu instinto é de se isolar
Para não mais se machucar

Mas você deve parar de se culpar
Nada justifica o que teve de enfrentar
A vergonha e o medo te fazem calar
Mas é agora que deve falar

Não precisa sozinha enfrentar
Não é vergonhoso ter que se expressar
Procure alguém confiável para desabafar
E um terapeuta para te ajudar a lidar

Você não é uma estatística a contar
Ou um segredo a guardar
Quanto mais a vítima se calar
Mais o abusador vai se aproveitar

Você é uma guerreira a enfrentar
Por tantos anos a lutar
Mais forte do que pode imaginar
Mais intensa do que pode sonhar

Ninguém pode mergulhar
Na sua alma para te salvar
Você mesma precisa se arrastar
Para fora desse lugar que não deveria estar

Seu destino é levantar
Apesar do que teve de enfrentar
A culpa, o medo e o passado abandonar
E se permitir libertar

Não reprima sua força milenar
Quando a solidão vier te assolar
Lembre-se do exército de mulheres a marchar
Que o mesmo problema estão a enfrentar.

Ninguém precisa caladinha aguentar
Juntas podemos por justiça buscar
Mesmo que demore a retornar
Um legado de lutadoras vamos deixar

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Asas


No fundo do poço a observar
As estrias das paredes sangrar
Ruídos de demônios a espreitar
A morte nos cantos se arrastar

As trevas me abraçar
O silêncio profundo me atravessar
Meus pés na lama atolar
O peso do mundo me esmagar

A dor visceral me calar
A maldição me condenar
O ódio meu coração pulsar
Como Antolhos a me cegar

O cansaço fez meu corpo se inclinar
Meus joelhos se dobrar
Minhas mãos no barro penetrar
Uma voz ao longe a sussurrar

“Bem vinda ao fundo do poço milenar
Daqui não vais mais afundar
Só tem um jeito de se salvar
É para cima escalar.”

Levei para cima meu olhar
Através da tampa vi o luar
Quando o medo parei de escutar
Descobri que tinha asas e sabia voar.

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Ser quem você é

Do berço social a berrar
Almas tentam se encaixar
Em preceitos retrógrados velar
Essência esfarelar

O não pertencimento assombrar
Como se no mundo estamos a sobrar
Nenhuma tribo ou religião encontrar
O sentido da vida almejar

A tristeza é a face fria do julgar
Não ser aceito é a sombra do pesar
Não importa o quanto tente se adaptar
Isso não vai mudar

A sabedoria milenar
Os nomes na história a cravar
Os maiores legados a se admirar
Renegados do conceito social a condenar

A vida nem sempre é fácil de se enfrentar
Fraqueza não é sinônimo de chorar
Lágrimas dão forças para lutar
Não tem nada de errado em ser quem você é e sonhar.

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Estamos Morrendo

Na cama do hospital gemendo
No banco do ônibus sofrendo
Na cadeira do escritório se perdendo
O tempo excedendo

Das próprias vontades se abstendo
Seu tempo precioso vendendo
Para um emprego horrendo
Sua vida dissolvendo

Os próprios limites transcendendo
A saúde se corrompendo
Na esperança do amanhã florescendo
E os sonhos em realidade se convertendo

Da mortalidade correndo
A cada dia esquecendo
Que enquanto estamos nascendo
Também estamos morrendo

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Corpo Sem Vida

As gotas de sangue a deslizar
Sob o asfalto a desenhar
A dor do corpo a agonizar
E a alma desintegrar

Seu erro foi apenas amar
Um futuro de paz esperar
Na esperança da igualdade alcançar
E nunca mais sofrer e chorar

Foi pego na rua a caminhar
Com golpes e facas sua carne rasgar
Sob os punhos e lâminas a suplicar
Para ser livre e para casa voltar

Sua dor não se importaram em validar
Sua voz fingiram não escutar
Agora fingem se importar
Sob seu corpo sem vida a repousar.

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8 de março

Elas pediram igualdade salarial
Enfrentando o idealismo tradicional
E foram engolidas pelas chamas do umbral
Da indignação machista e mortal

Elas foram esquecidas no manicômio local
Acusadas de descontrole metal
Por não aceitar o abuso conjugal
E na lobotomia assistiram a decadência final

Elas foram capturadas como um animal
Violadas como um ritual De uma luta desigual
Manchando de sangue o cendal
Que esconde da história o imoral

Seus nomes camuflados de forma trivial
Bruxas, loucas, vítimas do conceito social
Fragmentos de um passado superficial
Fazendo dia 8 de março um Memorial.

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Almas da Inquisição

Você a ouve bradar
No silêncio da noite clamar
Nos pés da lua a queimar
No fogo da inquisição desmanchar

A viúva sem um lar
A mulher que não aceitou se curvar
A sábia que usa o chá para curar
O corpo que não conseguiu se adequar

Eles a levaram para torturar
Com lâminas sua carne a cortar
Seu sangue fez derramar
Até assumir a culpa para tentar se salvar

A levaram para em um poste amarrar
A lenha sobre seus pés inflamar
O medo e a dor tem que aguentar
Para sua alma enfim libertar.

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Aceita a cura ou Surta

A sensibilidade sentimental
Do cidadão de bem heterossexual
Ao ver no comercial
Um casal homossexual

Cospe seu preconceito irracional
Se esconde no livro sagrado ancestral
Uma pausa na evolução intelectual
Com sua falsa moral

A teoria heterossexual convencional
É de que se seu filho ver e um personagem eventual
Lgbt e com saúde emocional
Vai confundir sua sexualidade primordial

A verdade é que todo lgbt atual
Já foi uma criança passional
No mundo cheio de referência heterossexual
Que não transformaram sua sexualidade essencial

A família nacional tradicional
Assiste a Novela cheia de intriga boçal
Traição, vingança e abuso sexual
Com Adolescente como fetiche psicossocial

Brasil é líder no ranking mundial
De pesquisas em site imoral
De cunho de violência sexual
De criança, mulher e até animal

Não é o gay, a lésbica ou o bissexual
Que procura conteúdo ilegal
No limbo pegajoso virtual
Para sentir o prazer carnal 

E Se opor ao ensino sexual
Só beneficia o abusador em potencial
Que vê uma oportunidade especial
Em Uma criança que não identifica um toque anormal.

Sweet dreams / Doce Sonhos

O trauma é um traço tênue em espessura
Entre a sanidade e a loucura
Uma sala vazia e escura
Atrás de um olhar de ternura

Sorriso desenhado como uma pintura
Quadro sangrento em uma bonita moldura
Personalidade formada em tortura
Fria como uma escultura

A mente que um dia foi pura
Transcendendo para uma pseudo realidade segura
Onde observa a altura
Sua alma resistindo com bravura

Mãos atadas em ligadura
Boca selada com atadura
Correntes apertadas a cintura
Alma dolorida e insegura

O mundo da imaginação é sua ruptura
A fuga da realidade dura
Para vestir sua armadura
E ser uma guerreira em cenários de aventura

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Titok @ashira_saiko

Cota não é esmola


Neta da injustiça social
Tem o sangue da luta racial
Pele cor de obsidiana essencial
Cabelo afro natural

O preconceito é seu inimigo atemporal
Na escola a chacota banal
Na universidade a minoria eventual
No emprego a cota funcional

Sua beleza sensacional
Copiada por procedimento artificial
Ocultada na ilusão comercial
De que não há espaço no campo profissional

Foco do fetiche e desejo imoral
Taxada como desleal
Por sua pele preta multirracial
Resquícios da mente machista feudal

Vítima de violência conceitual
Da face branca do preconceito nacional
Do desprezo governamental
Da pobreza condicional

Sua força visceral
Sua luta incondicional
Sua fé sobrenatural
Que enfrenta a intolerância religiosa insocial 

Pilar da resistência sociocultural
Herdeira da guerra Ancestral
Batalhando pela igualdade racial
Que é um direito judicial.