Desinteresse Social


Ele recebeu a pena capital
Desenhou um símbolo espiritual
Na palma da mão sepucral
Para disfarçar um distúrbio mental

Um sujeito antissocial
Com um olhar maligno animal
Procurando uma caça banal
Para saciar seu desejo imoral

Sua história cravada em um memorial
No cemitério horizontal
Atrás de uma lista disfuncial
De morte no cecil informal

Seu rosto estampou o jornal
Sua morte com louvor internacional
Mas suas vítimas Mortas no ritual
Cairam no desinteresse social

Herdeira

Nasceu em um barraco de madeira
Filha de faxineira 
Leite barato na mamadeira 
Pé descalço na sujeira 

A fome é sua companheira 
A ilusão é sua conselheira 
Seu futuro é uma ladeira 
Incinerando sonhos na caldeira 

A oportunidade é sorrateira 
Com palavras doces de brincadeira
Sua inocência na esmoleira
Consumida por uma alma embusteira

Da miséria é herdeira 
Ancestralidade traiçoeira
Com a educação pública brasileira
Talvez nunca se torne uma enfermeira 

Estamos Morrendo

Na cama do hospital gemendo
No banco do ônibus sofrendo
Na cadeira do escritório se perdendo
O tempo excedendo

Das próprias vontades se abstendo
Seu tempo precioso vendendo
Para um emprego horrendo
Sua vida dissolvendo

Os próprios limites transcendendo
A saúde se corrompendo
Na esperança do amanhã florescendo
E os sonhos em realidade se convertendo

Da mortalidade correndo
A cada dia esquecendo
Que enquanto estamos nascendo
Também estamos morrendo

Arrependimento


Ela estudou muito para se formar
Uma médica se tornar
Vestir o escudo branco para guerrear
E das garras da morte as almas tirar

Mas os óbitos surgiram para confrontar
Seu desejo insaciável de curar
Até a insuficiência a abraçar
Fazendo seu coração sangrar

Um dia ela teve de olhar
Para os casos terminais e assimilar
Que apesar de muito lutar
Somos finitos e o túmulo está a nos aguardar

Decidiu com cuidado paliativo trabalhar
E descobriu a sabedoria milenar
Que o maior arrependimento que a de predominar
É de não nos aceitar e nossa essência negar