Herdeira

Nasceu em um barraco de madeira
Filha de faxineira 
Leite barato na mamadeira 
Pé descalço na sujeira 

A fome é sua companheira 
A ilusão é sua conselheira 
Seu futuro é uma ladeira 
Incinerando sonhos na caldeira 

A oportunidade é sorrateira 
Com palavras doces de brincadeira
Sua inocência na esmoleira
Consumida por uma alma embusteira

Da miséria é herdeira 
Ancestralidade traiçoeira
Com a educação pública brasileira
Talvez nunca se torne uma enfermeira 

Estamos Morrendo

Na cama do hospital gemendo
No banco do ônibus sofrendo
Na cadeira do escritório se perdendo
O tempo excedendo

Das próprias vontades se abstendo
Seu tempo precioso vendendo
Para um emprego horrendo
Sua vida dissolvendo

Os próprios limites transcendendo
A saúde se corrompendo
Na esperança do amanhã florescendo
E os sonhos em realidade se convertendo

Da mortalidade correndo
A cada dia esquecendo
Que enquanto estamos nascendo
Também estamos morrendo

Arrependimento


Ela estudou muito para se formar
Uma médica se tornar
Vestir o escudo branco para guerrear
E das garras da morte as almas tirar

Mas os óbitos surgiram para confrontar
Seu desejo insaciável de curar
Até a insuficiência a abraçar
Fazendo seu coração sangrar

Um dia ela teve de olhar
Para os casos terminais e assimilar
Que apesar de muito lutar
Somos finitos e o túmulo está a nos aguardar

Decidiu com cuidado paliativo trabalhar
E descobriu a sabedoria milenar
Que o maior arrependimento que a de predominar
É de não nos aceitar e nossa essência negar