Almas da Inquisição

Você a ouve bradar
No silêncio da noite clamar
Nos pés da lua a queimar
No fogo da inquisição desmanchar

A viúva sem um lar
A mulher que não aceitou se curvar
A sábia que usa o chá para curar
O corpo que não conseguiu se adequar

Eles a levaram para torturar
Com lâminas sua carne a cortar
Seu sangue fez derramar
Até assumir a culpa para tentar se salvar

A levaram para em um poste amarrar
A lenha sobre seus pés inflamar
O medo e a dor tem que aguentar
Para sua alma enfim libertar.

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A Escuridão

Na escuridão da noite a soluçar
A sombra se inclina a me tocar
Seus braços frios a me abraçar
Suas mãos densas a me atravessar

Minha alma cansada acorrentar
Nas paredes desgastadas do pesar
O Sussurro do meu espírito ecoar
No quarto escuro se arrastar

Minhas lágrimas tentam disfarçar
Meu olhar perdido a vagar
Por entre os meus cacos deslizar
Uma Fresta de luz a procurar

Meu peito queima a silenciar
Minha voz desaparece pelo ar
Minha mente confusa a instigar
Das garras da vida se desvencilhar

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Sobrevivi

Cada ser humano a chorar
Na maternidade hospitalar
Com seus pequenos dedos a agarrar
O direito da liberdade desfrutar

Através dos anos infiltrar
Experiências complexas enfrentar
A personalidade desvendar
E o lugar no mundo procurar

A Rédea apertada a guiar
Bridrão de ferro a machucar
Antolhos de couro a cegar
Freio brusco a traumatizar

Lhe foi tirado o direito de pensar
É pecado seu jeito de se expressar
Sua família vai te abandonar
E o inferno vai te abraçar

Passar a vida a amputar
Parte da personalidade para encaixar
Nos conceitos social e familiar
Para a cada segundo sangrar

Ela quer o direito de se libertar
Ter paz para respirar
O nome social usar
Olhar no espelho e não chorar

A família não quis aceitar
Na sarjeta ela foi parar
Comendo restos para não desmaiar
Dormindo no frio do luar

Emprego ela não vai encontrar
Ninguém quer uma mulher transexual contratar
A prostituição é o que vai restar
E as drogas para sua dor calar

A escolha dela foi escapar
De quem a deveria amar
A prisão moral e familiar
Que a jogou na rua para agonizar

Algumas vão ser espancadas até a morte chegar
Queimadas vivas e facadas a  Rasgar
Outras a AIDS vai definhar
Tem aquelas que o frio e a fome vão matar

Mas existe aquela que a família vai apoiar
Muito amor e carinho vão dar
Ela vai o mundo enfrentar
E ajudar as amigas a levantar

Porque ela sabe que quando voltar
Para casa a família vai encontrar
Mesmo quando alguém a tentar matar
No colo da mãe a paz vai encontrar.

Indicação de música para leitura
Indicação de música para refletir

É só uma criança

No túnel do tempo a entrar
Descalça na rua a caminhar
Os joelhos sangrando a ralar
Pique esconde para brincar

A corda na rua estalar
Com uma cantiga a embalar
Saltos com rimas a mergulhar
E o suor em risadas transformar

Aos 11 anos você queria transar?
Ver sua inocência esmagar
Por que ela tem que pagar
O trauma do abuso suportar

A gravidez e a dor do parto
enfrentar
A solidão e o medo a cercar
Mas ela é só uma criança a chorar
Que nos braços da mãe queria estar

Recomendação de música: Eco – Jade Baraldo

Feminicídio


Ela tinha sonhos e desejos
Tinha Amigos e beijos
Gostava de pizza e muitos queijos
Pintou de rosa os azulejos
 
Desviava dos cortejos
Mas um homem entre os sertanejos
Lhe deu sensações de latejos
Mergulhando em gracejos

Aquele chame com molejos
Se transformou em malfazejos
Palavras ofensivas em ornejos
Lhe causando entejos

As agressões trouxeram arquejos
Seu sangue escondido nos quintalejos
Mais um entre os esquartejos
Desaparecendo em flamejos

Sugestão de música para a Leitura: Born Alone Die Alone – Madalen Duke

Estamos Morrendo

Na cama do hospital gemendo
No banco do ônibus sofrendo
Na cadeira do escritório se perdendo
O tempo excedendo

Das próprias vontades se abstendo
Seu tempo precioso vendendo
Para um emprego horrendo
Sua vida dissolvendo

Os próprios limites transcendendo
A saúde se corrompendo
Na esperança do amanhã florescendo
E os sonhos em realidade se convertendo

Da mortalidade correndo
A cada dia esquecendo
Que enquanto estamos nascendo
Também estamos morrendo

Arrependimento


Ela estudou muito para se formar
Uma médica se tornar
Vestir o escudo branco para guerrear
E das garras da morte as almas tirar

Mas os óbitos surgiram para confrontar
Seu desejo insaciável de curar
Até a insuficiência a abraçar
Fazendo seu coração sangrar

Um dia ela teve de olhar
Para os casos terminais e assimilar
Que apesar de muito lutar
Somos finitos e o túmulo está a nos aguardar

Decidiu com cuidado paliativo trabalhar
E descobriu a sabedoria milenar
Que o maior arrependimento que a de predominar
É de não nos aceitar e nossa essência negar