Sobrevivi

Cada ser humano a chorar
Na maternidade hospitalar
Com seus pequenos dedos a agarrar
O direito da liberdade desfrutar

Através dos anos infiltrar
Experiências complexas enfrentar
A personalidade desvendar
E o lugar no mundo procurar

A Rédea apertada a guiar
Bridrão de ferro a machucar
Antolhos de couro a cegar
Freio brusco a traumatizar

Lhe foi tirado o direito de pensar
É pecado seu jeito de se expressar
Sua família vai te abandonar
E o inferno vai te abraçar

Passar a vida a amputar
Parte da personalidade para encaixar
Nos conceitos social e familiar
Para a cada segundo sangrar

Ela quer o direito de se libertar
Ter paz para respirar
O nome social usar
Olhar no espelho e não chorar

A família não quis aceitar
Na sarjeta ela foi parar
Comendo restos para não desmaiar
Dormindo no frio do luar

Emprego ela não vai encontrar
Ninguém quer uma mulher transexual contratar
A prostituição é o que vai restar
E as drogas para sua dor calar

A escolha dela foi escapar
De quem a deveria amar
A prisão moral e familiar
Que a jogou na rua para agonizar

Algumas vão ser espancadas até a morte chegar
Queimadas vivas e facadas a  Rasgar
Outras a AIDS vai definhar
Tem aquelas que o frio e a fome vão matar

Mas existe aquela que a família vai apoiar
Muito amor e carinho vão dar
Ela vai o mundo enfrentar
E ajudar as amigas a levantar

Porque ela sabe que quando voltar
Para casa a família vai encontrar
Mesmo quando alguém a tentar matar
No colo da mãe a paz vai encontrar.

Indicação de música para leitura
Indicação de música para refletir

Contramão


A adolescente chorando no hospital
Ouvindo que sua obesidade factual
Apenas a cirurgia abdominal
Lhe daria o corpo ideal

O foco da chacota presencial e virtual
No colégio o isolamento moral
Vítima da pressão social
Que a faz odiar seu corpo temporal

O sentimento de culpa paradoxal
Dieta torturante e desleal
Bulimia irracional
Depressão numa linha transversal

Dizem que é romantização da obesidade habitual
Sua alto estima na lama do umbral
Eles a mandam parar de comer como um animal
Mesmo quando ela só toma o café matinal

Os vídeos daquela pessoa superficial
Cuspindo preconceito visual
E no meio desse mundo boçal
Ela só quer ficar em paz no seu corpo natural

Ela daria a vida para ser “normal”
Ter um corpo socialmente proporcional
Caber na catraca e na cadeira artificial
Sem ser motivo de humilhação e piada casual.

Indicação de música: Contramão – Pitty.

Quem vai queimar?


Ao longo da história a demonizar
Na fogueira vivas a queimar
Afinal mortos não podem falar
E a justiça não podem reivindicar

Esse conceito milenar
De que a morte pode justificar
A monstruosidade acobertar
E a mulher deve se calar

Parasitas a se alimentar
De vítimas humilhadas a se calar
Não estamos seguras na maca hospitalar
Na cama de casa ou no caixão a selar

Bebês no berço a sangrar
Depois de seu pai os Violar
Nem as de cinco anos vão escapar
E a de dez a engravidar

A garota da faculdade a voltar
No meio do mato a gritar
Com um desconhecido a rasgar
Sua pele até seu útero desintegrar

A grávida dando a luz a sedar
Sua vulnerabilidade aproveitar
Na frente dos colegas a esfregar
Seu órgão na boca dela enfiar

No necrotério a esfriar 
Sua alma já não está
Em baixo de um tarado a se esfregar
Seu rígido corpo degradar

Vermes a se arrastar
Nas entranhas de um país rudimentar
Onde os princípio são as minorias atacar
Mas a violência horrenda acobertar

O homem preso por abusar
Muitos seguidores a ganhar
O presidente a imitar
Tiros e a violência aclamar

Nos sites imorais a pesquisar
Estupro, pedofilia, necrofilia a Ganhar
O ranking das pesquisas liderar
Milhões de acessos a faturar

O feminismo invalidar
Pois é mais fácil justificar
Que as mulheres estão a odiar
Do que a violência explicar

Somos condicionados a acreditar
Que as feministas e os lgbts estão a infiltrar
A tradicional família brasileira deturpar
Para que os estupros venham a se disfarçar

Ouça as vozes a gritar
Almas destruídas a clamar
Por entre as chamas dissipar
O Eco da consciência que não se pode aguentar

Enquanto fingimos não enxergar
Eles fingem não praticar
Outros fingem não assistir e desejar
E a violência vai aumentar até a sua porta arrombar.

Indicação de música:
Leitura: Doce Veneno – Marina Luz, Misael.
Reflexão: Quem vai queimar – Pitty

Bem vindo ao meu lado sombrio

Um assunto que evitamos falar
Uma guerra prestes a se travar
Uma bomba armada a apitar
Uma fera furiosa a rosnar

Dores pelo corpo a se arrastar
Enjoo e ansiedade estalar
Tremores a se espalhar
Como um gato a espreitar

Por entre os sentimentos deslizar
Até a realidade se transformar
o surto nos controlar
E o demônio escapar

A explosão a nos deformar
Até o remédio os sentidos desligar
E mesmo se os detalhes não lembrar
As consequências vem te cobrar.

Recomendação de música: Darkside – Neoni.

Atriz Premiada


Necrófago a espreitada
Sente o odor da cilada
Verme que rasga a víscera gelada
De uma carcaça dilacerada

Colunista com a câmera ligada
Destilando seu veneno em rajada
Rastejando sua Pele escamada
Nas entranhas de uma alma humilhada

Ela não é apenas uma atriz premiada
Também é uma mulher violentada
Teve sua alma rasgada
E sua integridade questionada

A dor do trauma foi condicionada
Do Fruto da violência abdicada
Porém continua a ser violada
Pois sua vida privada não é respeitada

Culpado

O passado é como um chiado
Um barulho agudo abafado
Atravessando o coração desbotado
Que há muito tempo está cansado

Espinho no peito cravado
Seu pulso no chão algemado
Seu corpo ferido prostrado
Seu rosto na terra colado 

Do medo pós traumático enalçado
Sabor de medicamento controlado
Nas crises de pânico acorrentado
Com o coração rasgado 

Mas não importa o quanto tenha tentado
Seu pesar interno escancarado
Ainda sim será culpado
Das expectativas alheias não ter alcançado

Feminicídio


Ela tinha sonhos e desejos
Tinha Amigos e beijos
Gostava de pizza e muitos queijos
Pintou de rosa os azulejos
 
Desviava dos cortejos
Mas um homem entre os sertanejos
Lhe deu sensações de latejos
Mergulhando em gracejos

Aquele chame com molejos
Se transformou em malfazejos
Palavras ofensivas em ornejos
Lhe causando entejos

As agressões trouxeram arquejos
Seu sangue escondido nos quintalejos
Mais um entre os esquartejos
Desaparecendo em flamejos

Sugestão de música para a Leitura: Born Alone Die Alone – Madalen Duke

Desinteresse Social


Ele recebeu a pena capital
Desenhou um símbolo espiritual
Na palma da mão sepucral
Para disfarçar um distúrbio mental

Um sujeito antissocial
Com um olhar maligno animal
Procurando uma caça banal
Para saciar seu desejo imoral

Sua história cravada em um memorial
No cemitério horizontal
Atrás de uma lista disfuncial
De morte no cecil informal

Seu rosto estampou o jornal
Sua morte com louvor internacional
Mas suas vítimas Mortas no ritual
Cairam no desinteresse social

Herdeira

Nasceu em um barraco de madeira
Filha de faxineira 
Leite barato na mamadeira 
Pé descalço na sujeira 

A fome é sua companheira 
A ilusão é sua conselheira 
Seu futuro é uma ladeira 
Incinerando sonhos na caldeira 

A oportunidade é sorrateira 
Com palavras doces de brincadeira
Sua inocência na esmoleira
Consumida por uma alma embusteira

Da miséria é herdeira 
Ancestralidade traiçoeira
Com a educação pública brasileira
Talvez nunca se torne uma enfermeira 

Estamos Morrendo

Na cama do hospital gemendo
No banco do ônibus sofrendo
Na cadeira do escritório se perdendo
O tempo excedendo

Das próprias vontades se abstendo
Seu tempo precioso vendendo
Para um emprego horrendo
Sua vida dissolvendo

Os próprios limites transcendendo
A saúde se corrompendo
Na esperança do amanhã florescendo
E os sonhos em realidade se convertendo

Da mortalidade correndo
A cada dia esquecendo
Que enquanto estamos nascendo
Também estamos morrendo