Aceita a cura ou Surta

A sensibilidade sentimental
Do cidadão de bem heterossexual
Ao ver no comercial
Um casal homossexual

Cospe seu preconceito irracional
Se esconde no livro sagrado ancestral
Uma pausa na evolução intelectual
Com sua falsa moral

A teoria heterossexual convencional
É de que se seu filho ver e um personagem eventual
Lgbt e com saúde emocional
Vai confundir sua sexualidade primordial

A verdade é que todo lgbt atual
Já foi uma criança passional
No mundo cheio de referência heterossexual
Que não transformaram sua sexualidade essencial

A família nacional tradicional
Assiste a Novela cheia de intriga boçal
Traição, vingança e abuso sexual
Com Adolescente como fetiche psicossocial

Brasil é líder no ranking mundial
De pesquisas em site imoral
De cunho de violência sexual
De criança, mulher e até animal

Não é o gay, a lésbica ou o bissexual
Que procura conteúdo ilegal
No limbo pegajoso virtual
Para sentir o prazer carnal 

E Se opor ao ensino sexual
Só beneficia o abusador em potencial
Que vê uma oportunidade especial
Em Uma criança que não identifica um toque anormal.

Sweet dreams / Doce Sonhos

O trauma é um traço tênue em espessura
Entre a sanidade e a loucura
Uma sala vazia e escura
Atrás de um olhar de ternura

Sorriso desenhado como uma pintura
Quadro sangrento em uma bonita moldura
Personalidade formada em tortura
Fria como uma escultura

A mente que um dia foi pura
Transcendendo para uma pseudo realidade segura
Onde observa a altura
Sua alma resistindo com bravura

Mãos atadas em ligadura
Boca selada com atadura
Correntes apertadas a cintura
Alma dolorida e insegura

O mundo da imaginação é sua ruptura
A fuga da realidade dura
Para vestir sua armadura
E ser uma guerreira em cenários de aventura

Instagram @ashirasaiko

Titok @ashira_saiko

Cota não é esmola


Neta da injustiça social
Tem o sangue da luta racial
Pele cor de obsidiana essencial
Cabelo afro natural

O preconceito é seu inimigo atemporal
Na escola a chacota banal
Na universidade a minoria eventual
No emprego a cota funcional

Sua beleza sensacional
Copiada por procedimento artificial
Ocultada na ilusão comercial
De que não há espaço no campo profissional

Foco do fetiche e desejo imoral
Taxada como desleal
Por sua pele preta multirracial
Resquícios da mente machista feudal

Vítima de violência conceitual
Da face branca do preconceito nacional
Do desprezo governamental
Da pobreza condicional

Sua força visceral
Sua luta incondicional
Sua fé sobrenatural
Que enfrenta a intolerância religiosa insocial 

Pilar da resistência sociocultural
Herdeira da guerra Ancestral
Batalhando pela igualdade racial
Que é um direito judicial.

Sobrevivi

Cada ser humano a chorar
Na maternidade hospitalar
Com seus pequenos dedos a agarrar
O direito da liberdade desfrutar

Através dos anos infiltrar
Experiências complexas enfrentar
A personalidade desvendar
E o lugar no mundo procurar

A Rédea apertada a guiar
Bridrão de ferro a machucar
Antolhos de couro a cegar
Freio brusco a traumatizar

Lhe foi tirado o direito de pensar
É pecado seu jeito de se expressar
Sua família vai te abandonar
E o inferno vai te abraçar

Passar a vida a amputar
Parte da personalidade para encaixar
Nos conceitos social e familiar
Para a cada segundo sangrar

Ela quer o direito de se libertar
Ter paz para respirar
O nome social usar
Olhar no espelho e não chorar

A família não quis aceitar
Na sarjeta ela foi parar
Comendo restos para não desmaiar
Dormindo no frio do luar

Emprego ela não vai encontrar
Ninguém quer uma mulher transexual contratar
A prostituição é o que vai restar
E as drogas para sua dor calar

A escolha dela foi escapar
De quem a deveria amar
A prisão moral e familiar
Que a jogou na rua para agonizar

Algumas vão ser espancadas até a morte chegar
Queimadas vivas e facadas a  Rasgar
Outras a AIDS vai definhar
Tem aquelas que o frio e a fome vão matar

Mas existe aquela que a família vai apoiar
Muito amor e carinho vão dar
Ela vai o mundo enfrentar
E ajudar as amigas a levantar

Porque ela sabe que quando voltar
Para casa a família vai encontrar
Mesmo quando alguém a tentar matar
No colo da mãe a paz vai encontrar.

Indicação de música para leitura
Indicação de música para refletir

Contramão


A adolescente chorando no hospital
Ouvindo que sua obesidade factual
Apenas a cirurgia abdominal
Lhe daria o corpo ideal

O foco da chacota presencial e virtual
No colégio o isolamento moral
Vítima da pressão social
Que a faz odiar seu corpo temporal

O sentimento de culpa paradoxal
Dieta torturante e desleal
Bulimia irracional
Depressão numa linha transversal

Dizem que é romantização da obesidade habitual
Sua alto estima na lama do umbral
Eles a mandam parar de comer como um animal
Mesmo quando ela só toma o café matinal

Os vídeos daquela pessoa superficial
Cuspindo preconceito visual
E no meio desse mundo boçal
Ela só quer ficar em paz no seu corpo natural

Ela daria a vida para ser “normal”
Ter um corpo socialmente proporcional
Caber na catraca e na cadeira artificial
Sem ser motivo de humilhação e piada casual.

Indicação de música: Contramão – Pitty.

Quem vai queimar?


Ao longo da história a demonizar
Na fogueira vivas a queimar
Afinal mortos não podem falar
E a justiça não podem reivindicar

Esse conceito milenar
De que a morte pode justificar
A monstruosidade acobertar
E a mulher deve se calar

Parasitas a se alimentar
De vítimas humilhadas a se calar
Não estamos seguras na maca hospitalar
Na cama de casa ou no caixão a selar

Bebês no berço a sangrar
Depois de seu pai os Violar
Nem as de cinco anos vão escapar
E a de dez a engravidar

A garota da faculdade a voltar
No meio do mato a gritar
Com um desconhecido a rasgar
Sua pele até seu útero desintegrar

A grávida dando a luz a sedar
Sua vulnerabilidade aproveitar
Na frente dos colegas a esfregar
Seu órgão na boca dela enfiar

No necrotério a esfriar 
Sua alma já não está
Em baixo de um tarado a se esfregar
Seu rígido corpo degradar

Vermes a se arrastar
Nas entranhas de um país rudimentar
Onde os princípio são as minorias atacar
Mas a violência horrenda acobertar

O homem preso por abusar
Muitos seguidores a ganhar
O presidente a imitar
Tiros e a violência aclamar

Nos sites imorais a pesquisar
Estupro, pedofilia, necrofilia a Ganhar
O ranking das pesquisas liderar
Milhões de acessos a faturar

O feminismo invalidar
Pois é mais fácil justificar
Que as mulheres estão a odiar
Do que a violência explicar

Somos condicionados a acreditar
Que as feministas e os lgbts estão a infiltrar
A tradicional família brasileira deturpar
Para que os estupros venham a se disfarçar

Ouça as vozes a gritar
Almas destruídas a clamar
Por entre as chamas dissipar
O Eco da consciência que não se pode aguentar

Enquanto fingimos não enxergar
Eles fingem não praticar
Outros fingem não assistir e desejar
E a violência vai aumentar até a sua porta arrombar.

Indicação de música:
Leitura: Doce Veneno – Marina Luz, Misael.
Reflexão: Quem vai queimar – Pitty

Bem vindo ao meu lado sombrio

Um assunto que evitamos falar
Uma guerra prestes a se travar
Uma bomba armada a apitar
Uma fera furiosa a rosnar

Dores pelo corpo a se arrastar
Enjoo e ansiedade estalar
Tremores a se espalhar
Como um gato a espreitar

Por entre os sentimentos deslizar
Até a realidade se transformar
o surto nos controlar
E o demônio escapar

A explosão a nos deformar
Até o remédio os sentidos desligar
E mesmo se os detalhes não lembrar
As consequências vem te cobrar.

Recomendação de música: Darkside – Neoni.

Atriz Premiada


Necrófago a espreitada
Sente o odor da cilada
Verme que rasga a víscera gelada
De uma carcaça dilacerada

Colunista com a câmera ligada
Destilando seu veneno em rajada
Rastejando sua Pele escamada
Nas entranhas de uma alma humilhada

Ela não é apenas uma atriz premiada
Também é uma mulher violentada
Teve sua alma rasgada
E sua integridade questionada

A dor do trauma foi condicionada
Do Fruto da violência abdicada
Porém continua a ser violada
Pois sua vida privada não é respeitada

É só uma criança

No túnel do tempo a entrar
Descalça na rua a caminhar
Os joelhos sangrando a ralar
Pique esconde para brincar

A corda na rua estalar
Com uma cantiga a embalar
Saltos com rimas a mergulhar
E o suor em risadas transformar

Aos 11 anos você queria transar?
Ver sua inocência esmagar
Por que ela tem que pagar
O trauma do abuso suportar

A gravidez e a dor do parto
enfrentar
A solidão e o medo a cercar
Mas ela é só uma criança a chorar
Que nos braços da mãe queria estar

Recomendação de música: Eco – Jade Baraldo

Culpado

O passado é como um chiado
Um barulho agudo abafado
Atravessando o coração desbotado
Que há muito tempo está cansado

Espinho no peito cravado
Seu pulso no chão algemado
Seu corpo ferido prostrado
Seu rosto na terra colado 

Do medo pós traumático enalçado
Sabor de medicamento controlado
Nas crises de pânico acorrentado
Com o coração rasgado 

Mas não importa o quanto tenha tentado
Seu pesar interno escancarado
Ainda sim será culpado
Das expectativas alheias não ter alcançado